Physics · Livro 1 · Grades 1–9

Física do ensino fundamental

Física do ensino fundamental · Grades 1–9

69Da usina até a casa: o alternador

Um ano inteiro de quilowatt-horas passou pelas suas auditorias — mas vindos de onde? Siga o cabo para fora de casa, por baixo da rua, através das torres, e ele termina numa máquina girando num grande salão: o alternador. O segredo dele é a mais bonita surpresa da eletricidade deste livro: a descoberta do ano passado, de que a corrente faz magnetismo, rodada ao contrário.

69.1 A indução: o efeito invertido

Proposição 69.1 (A indução eletromagnética)

Mova um ímã perto de um circuito fechado — ou mova o circuito perto do ímã — e, enquanto o movimento durar, uma tensão aparece e impele uma corrente: eletricidade induzida por magnetismo que muda. As regras, tiradas da bancada:

  1. só a mudança induz: ímã parado ao lado da bobina, nada — por mais forte que o ímã seja;
  2. movimento mais rápido, ímã mais forte, mais voltas de bobina: tensão induzida maior;
  3. inverta o movimento e a corrente induzida se inverte — aproximar e afastar impelem marchas opostas.

No ano passado uma corrente fazia magnetismo; neste ano o magnetismo em movimento faz uma corrente. Os dois efeitos são uma moeda só, lida pelas duas faces — e a segunda face move a civilização.

Método 69.2 (Indução na bancada)

Uma bobina de muitas voltas, um ímã em barra, um medidor sensível com o zero no centro:

  1. ligue o medidor atravessado na bobina; segure o ímã parado dentro dela: o ponteiro dorme no zero — a força sozinha não induz nada;
  2. enfie o ímã: o ponteiro dá um pulo para um lado — e volta ao zero no instante em que o movimento para;
  3. retire-o: um pulo igual, para o outro lado;
  4. enfie mais depressa: um pulo maior. Chacoalhe o ímã para dentro e para fora com ritmo, e o ponteiro balança para a esquerda, para a direita, para a esquerda — você está fabricando corrente alternada com a manivela da mão.
Indução na bancada: só um ímã em movimento acorda a bobina — e o pulo do ponteiro se inverte junto com o movimento.
Indução na bancada: só um ímã em movimento acorda a bobina — e o pulo do ponteiro se inverte junto com o movimento.

69.2 O alternador

Definição 69.3 (Alternador)

Um alternador é a indução tornada incansável: um ímã girado de modo constante ao lado de uma bobina fixa (ou uma bobina girada dentro de um campo magnético). Cada meia volta traz um polo na direção da bobina e depois o leva embora — mudança, renovada sem parar — e assim a tensão induzida oscila positiva, negativa, positiva: alternada, por construção, traçando exatamente a senoide suave do capítulo do osciloscópio. Gire a cinquenta voltas por segundo e a saída alterna a 50Hz50\,\mathrm{Hz}: a frequência da rede é uma velocidade de rotação, mantida em passo por todas as usinas da rede.

Exemplo 69.4 (O dínamo da sua roda)

O dínamo de bicicleta é um alternador de bolso: a roda gira um ímãzinho dentro de uma bobina fixa, e a lâmpada acende — mais forte e com frequência mais alta conforme você pedala com mais vontade, exatamente como as regras da bancada prometem (e piscando na lentidão, como o capítulo da corrente alternada observou). O preço dele também é honesto: o dínamo arrasta — acender a lâmpada custa esforço de verdade às suas pernas. A indução não dá energia; ela converte movimento em eletricidade, joule por joule, menos o imposto do atrito.

Uma usina hidrelétrica: a água levantada desce em disparada, gira as turbinas, e os alternadores mandam a energia embora pelos fios.
Uma usina hidrelétrica: a água levantada desce em disparada, gira as turbinas, e os alternadores mandam a energia embora pelos fios.

69.3 Toda usina é uma máquina só

Proposição 69.5 (O núcleo comum)

Quase toda a eletricidade do mundo, seja qual for a propaganda dela, é feita do mesmo jeito: alguma coisa gira uma turbina — um robusto moinho de pás — e a turbina gira um alternador. As usinas diferem apenas em o que empurra as pás:

  1. as usinas térmicas fervem água queimando carvão ou gás — jatos de vapor movem a turbina;
  2. as usinas nucleares fervem a água com o calor da divisão de átomos — vapor de novo;
  3. as barragens hidrelétricas deixam um lago de montanha cair através das pás — a corrente da barragem da infância, completada;
  4. as turbinas eólicas dispensam o intermediário: o vento é o empurrão das pás, com um alternador em cada nacele.

Uma exceção confirma a regra: os painéis solares fazem eletricidade sem giro nenhum — por um efeito da luz que pertence aos anos de universidade.

Toda usina, uma corrente só: alguma coisa gira a turbina, a turbina gira o alternador, e a indução faz o resto. Só a primeira caixa muda de usina para usina.
Toda usina, uma corrente só: alguma coisa gira a turbina, a turbina gira o alternador, e a indução faz o resto. Só a primeira caixa muda de usina para usina.

Exemplo 69.6 (Correntes, auditadas)

Escreva cada usina como uma corrente de energia da infância, agora com vocabulário profissional. A barragem: altura armazenada \to movimento da água que cai \to rotação \to eletricidade — e o Sol, lembre, levantou aquele lago por evaporação: a energia hidrelétrica é luz do Sol adiada em forma de chuva. A usina de carvão: reserva química \to calor \to movimento do vapor \to rotação \to eletricidade — com calor vazando em cada seta, como as plumas das torres de resfriamento confessam. Vento: ar em movimento (agitado pelo Sol) direto para a rotação. As fontes que a natureza reabastece — água, vento, luz do Sol — são chamadas de renováveis; as reservas queimadas e divididas são gastas para sempre nas escalas de tempo humanas.

Observação 69.7 (Por que as torres zumbem a 400000 volts)

A última promessa do capítulo da corrente alternada vence hoje. Uma cidade precisa, digamos, de cem milhões de watts. Por P=UIP = U I, essa potência pode viajar como uma corrente enorme com tensão modesta — ou como uma corrente modesta com tensão enorme. Mas os fios esquentam com a corrente (o velho efeito térmico), e cada grau de aquecimento das torres é energia paga e perdida para os corvos. Então a rede transporta com tensões de tirar o fôlego — centenas de milhares de volts, correntes minúsculas, perda mínima — e vai baixando a tensão, bairro por bairro, até os mansos 230V230\,\mathrm{V} da sua parede. A máquina que faz esse degrau, o transformador, é duas bobinas e indução mais uma vez — e ela funciona apenas com corrente que alterna: a rede inteira fala CA porque o transformador fala.

69.4 Exercícios

Exercício 69.1

Enuncie as três regras de bancada da indução. O que um ímã forte parado induz?

Solução

Solução de Exercício 69.1.

Só a mudança induz; movimento mais rápido, ímã mais forte e mais voltas dão tensão maior; movimento invertido inverte a corrente. Um ímã parado, por mais forte que seja, induz exatamente nada.

Exercício 69.2

Por que a saída de um alternador é alternada? Ligue as mudanças de sinal à rotação.

Solução

Solução de Exercício 69.2.

Cada meia volta do rotor traz um polo na direção da bobina (induzindo para um lado) e depois o leva embora (induzindo para o outro): a tensão precisa trocar de sinal a cada meia rotação — a alternância está embutida no giro.

Exercício 69.3

Com que velocidade de rotação um alternador alimenta uma rede de 50Hz50\,\mathrm{Hz}? Sobre o que todas as usinas da rede precisam, portanto, concordar?

Solução

Solução de Exercício 69.3.

Cinquenta voltas por segundo (para a máquina simples de dois polos). Toda usina precisa manter exatamente o mesmo ritmo de rotação — a rede inteira gira em passo, dividindo uma frequência só.

Exercício 69.4

Diga o nome das duas caixas universais de toda usina, e da única caixa que muda entre carvão, átomo, barragem e vento.

Solução

Solução de Exercício 69.4.

A turbina e o alternador. Só muda quem empurra as pás: o vapor da chama, o vapor do átomo, o lago que cai ou o vento.

Exercício 69.5

Escreva a corrente hidrelétrica do lago de montanha até a sua lâmpada — e diga o nome da máquina celeste que encheu o lago.

Solução

Solução de Exercício 69.5.

Altura armazenada do lago \to movimento da água que cai \to rotação da turbina \to eletricidade do alternador \to transformador e rede \to lâmpada. O Sol encheu o lago: a evaporação levantou o mar, e a chuva o entregou às montanhas.

Exercício 69.6

Por que pedalar fica mais difícil no instante em que a lâmpada do dínamo acende? Que princípio proíbe que seja de outro jeito?

Solução

Solução de Exercício 69.6.

A energia da lâmpada precisa vir de algum lugar, e a única reserva que existe numa bicicleta é quem pedala: o dínamo converte trabalho de perna em luz, e por isso os joules da lâmpada aparecem como arrasto extra. A energia é convertida, nunca conjurada — a lei mais antiga do curso.

Exercício 69.7

Separe em renovável e não renovável: vento; carvão; o lago da barragem; urânio; luz do Sol. O que define a separação?

Solução

Solução de Exercício 69.7.

Renováveis: o vento, o lago (a chuva o reabastece), a luz do Sol. Não renováveis: o carvão e o urânio — gastos para sempre nas escalas de tempo humanas. A separação pergunta: a natureza reabastece a reserva no ritmo em que a esvaziamos?

Exercício 69.8

Por que a rede transporta a potência dela a centenas de milhares de volts? Diga o nome da fórmula que oferece a escolha e do efeito que a decide.

Solução

Solução de Exercício 69.8.

P=UIP = U I deixa uma mesma potência viajar com tensão alta e corrente pequena; o efeito térmico faz a perda dos fios crescer com a corrente. Corrente pequena, fios frios, energia poupada — e por isso a rede transporta alto e baixa a tensão na porta de casa.

Exercício 69.9 ★★

Um alternador de demonstração girado devagar na manivela acende a lâmpada dele fraquinho e com piscada visível; girado depressa, forte e de modo constante. Explique as duas mudanças com as regras da bancada e com o capítulo da frequência.

Solução

Solução de Exercício 69.9.

Manivela lenta: tensão induzida pequena (regra dois) — lâmpada fraca — com poucos ciclos por segundo: piscada visível, abaixo da taxa de fusão do olho. Manivela rápida: tensão maior — brilho — e uma frequência que o olho funde e alisa. Dois botões, uma manivela.

Exercício 69.10 ★★

Uma usina entrega 1×108W1 \times 10^{8}\,\mathrm{W}. Compare as correntes necessárias em 230V230\,\mathrm{V} e em 400000V400\,000\,\mathrm{V} (notação científica). Qual delas os cabos reais conseguiriam carregar?

Solução

Solução de Exercício 69.10.

Em 230V230\,\mathrm{V}: I=1×108÷2304.3×105AI = 1 \times 10^{8} \div 230 \approx 4.3 \times 10^{5}\,\mathrm{A} — quatrocentos mil ampères: cabo nenhum na Terra. Em 400000V400\,000\,\mathrm{V}: I=1×108÷4×105=250AI = 1 \times 10^{8} \div 4 \times 10^{5} = 250\,\mathrm{A} — cabo de transmissão comum. O caso do transformador, encerrado.

Exercício 69.11 ★★

As usinas térmicas e nucleares são, no fundo, chaleiras elaboradas. Defenda esse slogan com as correntes de energia delas — e localize o único elo em que as duas diferem.

Solução

Solução de Exercício 69.11.

As duas correntes de energia se leem: reserva \to calor \to água fervendo \to movimento do vapor \to rotação \to eletricidade — chaleiras elaboradas alimentando turbinas. As correntes diferem em exatamente um elo: o que faz o calor — a química do carvão que queima ou a divisão dos núcleos de urânio.

Exercício 69.12 ★★★

A grande viagem, feita ao contrário: hoje à noite a sua lâmpada brilha em 230V230\,\mathrm{V}. Trace a energia dela rio acima por todas as caixas — transformador, torres, alternador, turbina e uma reserva primária à sua escolha — dizendo o nome da forma de energia em cada etapa e dos vazamentos pelo caminho. Depois responda à pergunta da infância com uma frase de nono ano: de onde vem, no fim das contas, a luz do seu quarto?

Solução

Solução de Exercício 69.12.

Rio acima: os 230V230\,\mathrm{V} da parede vieram pelo transformador do bairro (tensão rebaixada), pelas torres a centenas de quilovolts (forma de transporte: CA de alta tensão, vazando um pouco de calor), saídos de um alternador (rotação para eletricidade, por indução), girado por uma turbina (movimento do vapor ou da água), alimentada por uma reserva — digamos o lago levantado da barragem, levantado pela evaporação do Sol. Daí a frase de nono ano: a luz do seu quarto é luz do Sol — armazenada, caída, girada e transportada.

69.5 Problema: Plantão noturno na usina

Problema 69.1

Problema de fim de semana — plantão noturno na usina hidrelétrica; indução, sincronismo e a tempestade; o diário do engenheiro

Você acompanha a engenheira noturna na barragem do vale — lago em cima, cidade embaixo, alternadores zumbindo no meio.

Parte I — O salão das máquinas.

  1. A engenheira abre uma comporta: a água troveja pela turbina três, e os medidores do alternador dela acordam. Escreva a corrente de energia do lago até o barramento.
  2. Dentro do alternador, o que se move e o que fica parado — e por que alguma coisa precisa se mover?
  3. A rede funciona a 50Hz50\,\mathrm{Hz}. A engenheira observa um mostrador que mantém a turbina três exatamente na rotação correspondente. O que dá errado na velocidade errada? (O que a frequência da tensão dela faria?)
  4. Um aprendiz pergunta se um ímã mais forte no rotor daria potência extra “de graça”. Corrija o sonho com o preço honesto do dínamo.

Parte II — A demanda da cidade.

  1. Às 03:00 a cidade puxa 2×107W2 \times 10^{7}\,\mathrm{W}. Nos 200000V200\,000\,\mathrm{V} da linha de transporte, que corrente sai da usina?
  2. A mesma potência em 230V230\,\mathrm{V} precisaria de que corrente — e o que a comparação diz sobre o serviço do transformador?
  3. Às 07:00, as chaleiras e os aquecedores acordam: a demanda dobra. Do que a engenheira precisa alimentar mais as turbinas, e o que aconteceria com a frequência da rede se ela alimentasse de menos? (As máquinas desaceleram sob carga, como um ciclista numa subida.)
  4. A usina irmã — um parque eólico na crista — sai do ar quando o vento morre. Que caixa da corrente dela falhou, e que caixas ficaram inteiramente saudáveis?

Parte III — A tempestade.

  1. Um raio corta uma linha de transporte; os disjuntores disparam. A engenheira redireciona a potência pelas linhas vizinhas. Que propriedade da rede — uma única grande rede em paralelo — torna o redirecionamento possível?
  2. Durante a correria, as luzes de um galpão ficam amarronzadas e fracas por um minuto. Interprete: o que caiu, e do que os motores e as lâmpadas do galpão ficaram brevemente subalimentados?
  3. Amanhecer: o diário precisa explicar aos aprendizes por que a eletricidade da noite inteira era, na origem, luz do Sol. Rascunhe a explicação em duas linhas (lago, evaporação, chuva).
  4. Última linha do diário, por tradição: a física da noite em uma frase — com o movimento, o magnetismo e a chaleira matinal da cidade dentro dela.
Solução

Solução de Problema 69.1.

1. Altura do lago \to movimento em disparada da água \to rotação da turbina \to tensão alternada induzida do alternador \to barramento da usina. 2. O ímã do rotor gira; as bobinas ficam paradas. Sem movimento, não há mudança do magnetismo através das bobinas — e sem mudança a indução não dá absolutamente nada. 3. A frequência da tensão copia a rotação: velocidade errada, frequência errada — e uma máquina fora de passo com os 50Hz50\,\mathrm{Hz} da rede briga com todos os outros alternadores da rede em vez de ajudá-los. 4. Um ímã de rotor mais forte de fato induz mais — e a turbina imediatamente se esforça mais para mantê-lo girando contra o arrasto magnético mais duro: mais eletricidade saindo exige mais água passando, joule por joule. Quem paga é o lago, não o ímã. 5. I=2×107÷2×105=100AI = 2 \times 10^{7} \div 2 \times 10^{5} = 100\,\mathrm{A}. 6. I=2×107÷2308.7×104AI = 2 \times 10^{7} \div 230 \approx 8.7 \times 10^{4}\,\mathrm{A} — oitenta e sete mil ampères: cabo impossível. O serviço do transformador é exatamente essa troca — tensão para cima, corrente para baixo, potência inalterada. 7. De mais água passando pelas comportas. Subalimentadas, as máquinas com carga desaceleram como um ciclista numa subida — e a frequência da rede cai abaixo de cinquenta: os relógios e as máquinas da rede toda sentem uma rede faminta. 8. Só a primeira caixa — o vento, o empurrão das pás. A turbina, o alternador e o transformador ficaram perfeitamente saudáveis, em calmaria. 9. A rede é uma única grande rede em paralelo: muitas estradas ligam cada usina a cada cidade, e assim a parcela de uma linha cortada pode circular pelos ramos sobreviventes — independência do paralelo, em escala nacional. 10. As linhas redirecionadas e sobrecarregadas deixaram a tensão entregue cair abaixo da nominal por um minuto: as lâmpadas do galpão enfraqueceram e os motores dele giraram com preguiça — subalimentados, como todo aparelho abaixo da tensão nominal dele precisa ficar. 11. “Cada watt desta noite veio da queda da água do lago; o Sol evaporou o mar e a chuva a trouxe para as nossas montanhas. Aqui a gente gira luz do Sol — guardada num lago, pelo caminho do céu.” 12. Por exemplo: “O movimento diante dos ímãs fez cada volt da noite — e, às sete, dez mil chaleiras pediram ao lago que caísse um pouquinho mais depressa.”

Termos definidos neste capítulo

Ver todos os 393 termos do glossário