Physics · Livro 1 · Grades 1–9

Física do ensino fundamental

Física do ensino fundamental · Grades 1–9

34Calor e isolamento

Por que o escorregador de metal parece gelado e o banco de madeira ao lado dele não parece? Esse mistério nos persegue desde o primeiro ano deste livro. Hoje ele cai — junto com os segredos da garrafa térmica, da janela dupla e do pardal todo inflado no inverno. A chave é parar de perguntar como as coisas parecem e começar a seguir por onde o calor flui.

34.1 O calor está em trânsito

Definição 34.1 (Calor)

Calor é energia em trânsito de um corpo mais quente para um mais frio. A sopa passa calor para a colher, o aquecedor passa para a sala, a sua mão passa para uma bola de neve. O calor não é um material escondido dentro das coisas quentes — ele é um fluxo, e sempre tem um sentido.

Proposição 34.2 (O calor flui ladeira abaixo)

Sozinho, o calor sempre flui do corpo mais quente para o mais frio — nunca ao contrário. O fluxo corre enquanto as duas temperaturas forem diferentes e vai morrendo conforme elas se encontram: deixados juntos por tempo suficiente, vizinhos quente e frio acabam numa mesma temperatura.

Exemplo 34.3 (Lendo o sentido)

A colherinha no chá esquenta: o calor fluiu do chá \to para a colher. A limonada com gelo esfria — cuidado! Não entrou nada chamado “frio”: o calor fluiu da limonada para o gelo, derretendo-o. O frio não é um fluxo; é só o nome que damos ao lado perdedor. Todos os livros de física dizem “a bebida perde calor”, nunca “a bebida ganha frio”.

Uma regra só para toda cozinha e todo inverno: o calor corre ladeira abaixo, do mais quente para o mais frio, até a ladeira acabar.
Uma regra só para toda cozinha e todo inverno: o calor corre ladeira abaixo, do mais quente para o mais frio, até a ladeira acabar.

34.2 Pistas rápidas e pistas lentas

Definição 34.4 (Condutores e isolantes de calor)

Os materiais diferem muitíssimo na rapidez com que deixam o calor fluir por eles. Um condutor de calor é uma pista rápida — os metais acima de todos. Um isolante térmico é uma pista lenta: madeira, lã, plástico, penas — e o campeão, o ar parado, preso de modo que não possa rodopiar. (As palavras foram tomadas de propósito dos condutores e isolantes da eletricidade; as duas propriedades andam juntas com frequência, mas nem sempre.)

Uma manhã de geada no parquinho: o escorregador de metal e o banco de madeira passaram a mesma noite na mesma temperatura — e mesmo assim só um deles vai morder a sua pele.
Uma manhã de geada no parquinho: o escorregador de metal e o banco de madeira passaram a mesma noite na mesma temperatura — e mesmo assim só um deles vai morder a sua pele.

Exemplo 34.5 (O mistério do escorregador, resolvido)

O escorregador de metal e o banco de madeira passaram a noite na mesma temperatura gelada — o termômetro jurou isso faz tempo. Toque nos dois: a sua mão está mais quente que ambos, então o calor flui de você para cada um deles. Mas o metal é uma pista rápida — ele leva embora o seu calor num rompante, e é esse rompante que a gente sente como “gelado”. A madeira recebe o seu calor só num fio de água: mal fica fresca. A sua pele nunca esteve medindo temperatura — ela mede a velocidade da própria perda de calor. Caso encerrado, quatro anos depois.

Método 34.6 (A corrida do esfriamento)

Veja o isolamento vencer, com números:

  1. encha duas canecas iguais com água da torneira igualmente quente (peça a um adulto água morna para a mão, não fervendo);
  2. enrole uma das canecas com bastante cachecol de lã; deixe a outra sem nada;
  3. finque um termômetro em cada uma e anote as duas temperaturas numa tabela a cada cinco minutos, seis vezes;
  4. desenhe os dois registros como duas linhas num mesmo gráfico, temperatura contra tempo.

A linha da caneca sem nada despenca; a linha da caneca enrolada desce suavemente. Mesmo começo, mesma sala — a lã transformou a saída do calor numa pista lenta.

A corrida do esfriamento, desenhada: duas canecas de água a 50\, C numa sala a 20\, C. A lã não consegue impedir a fuga do calor — mas a torna lindamente lenta.
A corrida do esfriamento, desenhada: duas canecas de água a 50C50\,{}^{\circ}\mathrm{C} numa sala a 20C20\,{}^{\circ}\mathrm{C}. A lã não consegue impedir a fuga do calor — mas a torna lindamente lenta.

Observação 34.7 (O isolamento apenas retarda)

Olhe para onde as duas curvas estão indo: para os 20C20\,{}^{\circ}\mathrm{C} da sala. Cachecol nenhum, garrafa térmica nenhuma, parede de iglu nenhuma jamais impede o fluxo do calor ladeira abaixo — o isolamento só deixa a pista lenta mais lenta ainda. É também por isso que o casaco no boneco de neve (lembra dele?) atrasou o derretimento sem conseguir salvá-lo: o calor do verão continuou escorrendo para dentro.

34.3 A arte de prender o ar

Exemplo 34.8 (Engenharia de inverno)

Quase toda coisa quentinha que você tem é uma máquina de prender ar. A lã aquece você não pelas fibras em si, mas pelos incontáveis bolsões de ar entre elas; os edredons de pena, o fleece e o pardal inflado feito bolinha num fio congelado jogam todos a mesma carta. As casas entram na brincadeira: as janelas duplas aprisionam uma camada de ar entre dois vidros, e as paredes isoladas são recheadas com um enchimento fofo que guarda ar. O ar parado é a pista lenta campeã — o truque é mantê-lo parado.

Exemplo 34.9 (A garrafa térmica)

A garrafa térmica é a obra-prima do isolamento: uma garrafa dentro de outra, com o ar entre elas bombeado para fora até quase nada — e, onde quase não há material, o fluxo de calor quase não encontra pista (um truque que vale lembrar: é o mesmo vazio que silenciou a campainha no frasco). Acrescente paredes espelhadas para devolver o brilho do calor para dentro, e o chocolate quente encontra a tarde ainda quente — ou a limonada ainda gelada: a garrafa térmica não sabe nada de quente nem de frio, ela só fecha as pistas, nos dois sentidos.

Observação 34.10 (Manter o calor, dito direito)

Agora a velha pergunta do casaco se encerra de vez. Um casaco é ar preso em volta de um fabricante de calor — você. O seu corpo despeja calor para fora o dia inteiro; o casaco transforma esse jorro num fio de água, e você fica quentinho com a sua própria produção. No boneco de neve — sem fabricante de calor por dentro — o mesmo casaco só retarda o fio de água do verão entrando. O isolamento não tem preferidos: ele retarda o fluxo, em qualquer sentido que ele corra.

34.4 Exercícios

Exercício 34.1

O que é calor, e em que sentido ele flui sozinho? Quando o fluxo para?

Solução

Solução de Exercício 34.1.

Calor é energia em trânsito de um corpo mais quente para um mais frio; sozinho, ele flui só ladeira abaixo, do quente para o frio, e para quando as duas temperaturas se encontram.

Exercício 34.2

“Feche a porta, você está deixando o frio entrar!” Reescreva a frase da avó do jeito que um livro de física escreveria.

Solução

Solução de Exercício 34.2.

“Feche a porta, você está deixando o nosso calor sair!” — o frio não entra; é o calor da casa que sai na direção da rua mais fria.

Exercício 34.3

Separe em pistas rápidas e pistas lentas para o calor: uma panela de cobre; um cachecol de lã; uma colher de aço; ar parado; uma colher de pau; um edredom.

Solução

Solução de Exercício 34.3.

Pistas rápidas: a panela de cobre, a colher de aço. Pistas lentas: o cachecol de lã, o ar parado, a colher de pau, o edredom.

Exercício 34.4

Por que as panelas têm fundo de metal mas cabo de plástico ou de madeira? Responda com as pistas.

Solução

Solução de Exercício 34.4.

O fundo precisa ser uma pista rápida, empurrando depressa o calor do fogão para dentro da comida; o cabo precisa ser uma pista lenta, mantendo esse mesmo calor longe da sua mão. Uma ferramenta, os dois talentos, cada um no seu lugar.

Exercício 34.5

Enfim, com as suas palavras: por que o metal parece mais frio que a madeira estando na mesma temperatura? O que a pele mede de verdade?

Solução

Solução de Exercício 34.5.

Os dois estão na mesma temperatura, mas o metal é uma pista rápida: ele leva embora num rompante o calor da sua mão mais quente, e o rompante é a sensação de “gelado”. A pele mede a velocidade da própria perda de calor, e não a temperatura.

Exercício 34.6

Na corrida do esfriamento, por que as duas canecas precisam ser iguais e começar igualmente quentes? Qual diferença única a experiência está testando?

Solução

Solução de Exercício 34.6.

Uma corrida justa muda uma única coisa — o embrulho. Canecas iguais, mesmo calor de partida e a mesma sala garantem que só o cachecol explique qualquer diferença entre as duas curvas.

Exercício 34.7

Leia o gráfico do esfriamento: que temperatura cada caneca marca, mais ou menos, depois de 1515 minutos? Para qual temperatura as duas curvas estão indo, e por quê?

Solução

Solução de Exercício 34.7.

Depois de 1515 minutos: a caneca enrolada marca cerca de 41C41\,{}^{\circ}\mathrm{C}, e a caneca sem nada, cerca de 30C30\,{}^{\circ}\mathrm{C}. As duas curvas vão em direção aos 20C20\,{}^{\circ}\mathrm{C} da sala: o fluxo corre até as temperaturas se encontrarem, e o isolamento só torna a viagem mais lenta.

Exercício 34.8

Por que um pardal se infla feito bolinha num fio congelado? Diga três invenções humanas que jogam a mesma carta.

Solução

Solução de Exercício 34.8.

As penas infladas prendem um cobertor grosso de ar parado — a pista lenta campeã — em volta do corpo quente do passarinho. A mesma carta: roupas de lã, edredons de pena, janelas duplas (ou fleece, paredes isoladas).

Exercício 34.9 ★★

A mesma garrafa térmica mantém o chocolate quente em julho e a limonada gelada em janeiro. Explique como um único objeto dá conta dos dois serviços — o que a garrafa térmica faz de fato, e com o quê?

Solução

Solução de Exercício 34.9.

A garrafa térmica não fabrica calor nem frio: ela fecha as pistas do calor — o vazio entre as duas paredes dela, o espelhamento para devolver o brilho. No inverno, ela retarda a fuga do calor do chocolate; no verão, retarda a entrada do calor do ambiente. Um objeto só, nos dois sentidos, porque tudo o que ele administra é o fluxo.

Exercício 34.10 ★★

Uma sorveteira enrola os potes dela em cobertores grossos de lã num dia quente, e um freguês ri: “Lã serve para manter as coisas quentes!” Defenda a sorveteira com a Observação 34.10 — em que sentido o calor está tentando fluir, e o que a lã faz com ele?

Solução

Solução de Exercício 34.10.

Num dia quente, o calor tenta fluir do ar quente para dentro dos potes gelados. A lã transforma esse fluxo para dentro num fio de água — o mesmo retardo que ela faz em volta de um corpo quente. O isolamento não tem preferidos; quem entendeu isso foi a sorveteira, e não o freguês.

Exercício 34.11 ★★

Duas casas passam pelo mesmo inverno: uma com janelas simples, outra com janelas duplas. Explique com as pistas e o ar preso por que a casa de janelas duplas queima menos combustível — e por que, pela Observação 34.7, ela ainda precisa de algum aquecimento.

Solução

Solução de Exercício 34.11.

A janela dupla aprisiona uma camada de ar parado — uma pista lenta — entre os vidros, de modo que o calor da casa escorre em fio de água onde a janela simples o deixa jorrar. Menos calor escapando, menos combustível para repor. Mas o isolamento só retarda o fluxo ladeira abaixo, nunca o impede: algum calor sempre vaza na direção do inverno, e o aquecedor precisa continuar repondo.

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